quinta-feira, setembro 06, 2007
Eu penso em trocar
A minha TV num jeito de te levar
A qualquer lugar que você queira
E ir onde o vento for
Que pra nós dois
Sair de casa já é se aventurar"
Nunca comprei uma TV. Quando ganhei paredes, olhei mais para a estante, as páginas e concluí os afazeres. Deixei de lado a chance de ver a partida, só para secar os cabelos, cheirar a blusa onde ficou teu cheiro, três ou quatro páginas antes de apagar a luz.
E eu, que nunca comprei uma TV, mais uma vez vou te levar praquela praia de ondas tortas. Mais uma vez para me ver na paz que eu tanto quero.
Amém
Aquele incômodo se foi e uma dor apareceu no lugar, mas foi embora com o tempo. Um pacote de bombons do meu lado. –Tio Xavier que te deu. Não podia comer nenhum. Lembro de tomar banho nos braços da mãe e do pai e de quando ela trocava aquele curativo tão grande que eu dizia nem precisar usar cueca.
Eu lembrei dessa agonia no baixo ventre, na dor de levantar peso. Do grito que ainda deve ecoar no consultório quando o médico puxou todos os pontos de uma vez. A cicatriz ficou escondida para virar homem, mas na terceira cirurgia de hérnia do meu pai eu lembro que já fiz uma também.
Então vamos parar com essa história de fazer academia e continhar com as caminhadas que é muito mais aconselhável!
segunda-feira, setembro 03, 2007
"Uso obrigatório de óculos ou lentes corretivas"
Então, por quê?! Pra que fazer questão de burlar o único exame físico para se sentir por cima?! Pensando bem, "Uso obrigatório de óculos ou lentes corretivas" devia vir estampado da capa de todas as minhas revistas ao copo com leite.
domingo, agosto 12, 2007
Passaram tantos meses, e tudo ia, de fato, feito um piloto automático. Não aquele mal: se eu o liguei, foi para apreciar a paisagem.
As autenticações eletrônicas nos papéis que têm números depois do R$, outros guardados para o futuro se acumulando para anti desengordurante, as disciplinas indo embora e mais alguns certificados chegando. Tudo como planejado.
Aos sábados, macarrão e cinema. Aos domingos, tarde longa de pés, lençol, chocolate e desejo da outra sexta.
Não essa. Já são mais de 17 horas e eu ainda não tomei um banho para tirar o teu cheiro, tão forte, de hospital. Amanhã, sem ter nem pra quê, vou pentear os cabelos e usar calculadora.
quarta-feira, agosto 08, 2007

Dezessete vira sete. Eu sorrio porque é da noite. A vontade que dá é de ir para casa. Quanto custa? Não importa: eu iria. Uma falta de ingresso, uma hora perdida, pouca ou nenhuma gasolina: nada se compara com isso. Porque casa é uma lembrança que não posso alcançar com as pernas nem com tudo o que tiver na carteira.
Resta então decidir em qual corredor caminhar agora, comemorar (?!) que o atraso seja só por mais 2 horas. Vão ser mais de 24, ao final, todas elas, entre desconhecidos. Sabe aquele vizinho que você não lembra o nome ou aquela menina que na terceira série sentava na primeira ou sexta fila, você não lembra ao certo?! Quem me dera que estivessem aqui!
Onde não há qualquer coincidência, referência, ponto em comum. Não que eu não fale, mas a história é a mesma: "Vim de Fortaleza. Conexão em Natal. Aqui no Rio era só escala, mas mandaram descer e cancelaram o vôo. Cheguei 22h30". "Sim, eu sou cearense, é que o nosso sotaque não é como a Globo pensa".
"Tô indo pra Curitiba, coisa de trabalho". "Deve tá frio mesmo, mas tô levando casaco!". "Pois é, pra gente julho é tão quente quando janeiro, tanto faz". "Dormi no hotel, teria o dia livre, mas vim tentar remarcar o vôo... não deu certo, então o jeito é esperar, né?" "Prazer, você também".
Pelo menos veio comida quando eu já confundia Lan Chile com lanchinho. Riem. Dizem de onde são. Há quantas horas, para onde vão. E, no chão de frente do painel que mais uma vez anuncia "Cancelado", acabo lembrando, tão forte, como sou brasileiro. Totalmente perdido entre tantos sotaques, todos, desesperados.
(E neste esquecível 24 de julho, chorei no Galeão. Nunca pensei que Curitiba fosse tão longe, 36 horas, e que minha casa fosse tão boa)
terça-feira, julho 31, 2007
Daí torce que a roupa tivesse mais uns 10 metros de espessura, lembra que ficava só de bermuda e, mesmo tendo viajado tantos quilômetros com uma tremenda vontade de pegar esse tal de inverno, só deseja a hora, a bendita hora, de voltar; matar saudades, dela e da praia. É aí que Pinto Martins, mais uma vez, é nome santo.
Era tudo branco. Bem branco. Somente branco. Daí, legendas: "-Vovô?! É você?" Era. Conversou um pouco, mas daí os tais barulhos saíram de uma constante, voltando a pulsos, voltando a imagem para a maca, voltando o sorriso dos pais.
Fiquei impressionado. Não fazia mais de um ano que aos cinco vi um balão de oxigênio desfazer meus sentidos para acordar sem poder usar as pernas, com um saco de bombons e essa cicatriz que até hoje guardo.
Tive medo de ir lá. Não por encontrar o vovô. Mas porque, pensando bem, branco com branco, deve ser um saco. Essa tal eternidade, que perguntei pra minha mãe quanto tempo durava. "Pra sempre". Como assim, pra sempre?
Devia ser um saco essa tal eternidade! No começo, beleza, não dá para morrer, onisciência total, oi vovô, oi vovó. Mas depois bem que ia ficar meio chato. Esse tal de pra sempre... ...E ainda mais sem cores!
Daí eu respirei. Fiquei com um pouco mais de medo do balão. Mas sempre que vôo, imagino um pouco como poderá ser lá: agua em sua forma gasosa, atmosfera rala. Maldita ponta de asa, que insiste em existir!
sábado, junho 30, 2007
Cool enough to not quite see it
Doomed
Pick your pockets full of sorrow
And run away with me tomorrow
June "
É como todo rito de passagem. Preciso morrer um pouco.
Aconteceu na quinta. Experimentei o que deve ter sido o último minikalzone dos tempos que saía do IDER nas carreiras, Pici ou 55, para ir na pós na Unifor. Aulas que do meu mundo só eu vi, só eu passei. Palmito. Maravilhoso palmito. Suco de... goiaba. Cantinho de
parede, guardanapo.
Depois de dias, já hoje, olhei pelo vidro para toda a longa Pontes Vieira. É ali que vou voltar a caminhar, todos os dias, sabia? Mas se será mesmo "todos", não sei. Pode ser que mude. Pode ser que tenhamos novidades e, claro, pode ser que tudo fique exatamente igual.
É esse tal de mês de junho. Que desde o primeiro dia eu penso "só faltam 30". E agora, já quase no fim, parece que se prende a toda hora. Então eu venho aqui e agradeço. Se você faz parte da minha vida, de perto ou mesmo nem sabendo como, obrigado.
Sei que nada disso é muito lido, e que ninguém comenta mesmo, mas sei que estou vivo. Se eu passar dessa noite, é que sou mesmo forte. Olha lá, meia-noite, só mais algumas horas para os 23.
sexta-feira, junho 29, 2007
E sou pegue pela realidade. Pegue pelo tornozelo, levado à lona, com suor de um dia inteiro e ainda insistia em alguma verdade. O relógio que indica que a hora vai chegando, a censura, a pilha de roupas, de livros, de linhas, nos poucos segundos de vida entre já dormir e já levantar.
...e assim eu penso sobre o que há muito não pensava, o sentido dessa tal existência, como gosto, como amo...
Busca pelo sentido exato de cada palavra. Não quis dizer isso. Meu tom é meu. Ok.. Concordo. Aceito. Faço mais rápido. Dois ou mais parágrafos, mais vinte minutos, menos tantos centavos. Pouco importo.
Mas do que eu falava mesmo? Que bela história viria trazendo o tal sorriso?
Pegue pelo tornozelo. Ao chão.
quinta-feira, junho 21, 2007
Ai vai, balança a mão com um jeitinho suficiente pra chamar a atenção de um jato a 2000 por hora, dizendo bem articulado: "Tchau tô in-do em-bo-ra, tu-do bem?". Nada. Vai fechando a porta fazendo o máximo de zuada. Nada.
Daí que pegar minha chinela depois do banho é uma dúvida tão séria quanto, lógico, eu dou esse pedaço de chocolate, ai eu sei que a coisa tá complicada. Mas são os quatro anos, fazer o quê?!
Sabia que quatro, na Córeia, é tido como coisa de azar?! Pois é, mas o jeito é esperar certinho chegar aos cinco. Até lá, quem sabe, eu ponho dos eixos. Caminho lado-a-lado, consigo ver um filme direito... ...vai ver que assim eu ganho tchau na hora de ir embora.
quinta-feira, junho 14, 2007


Mudo. Mudamos. Algumas vezes em cima do muro. Feito como temos as tais conversas humanistas entre os oito maravilhosos ingredientes adicionados ao fetuccine. Logo após, sorvete. Da Mc Donald's.
Dia seguinte, reconheço na conhecida as roupas e cores de quem decidiu ser "mulher da vida". Saia curta, maquiada logo de manhã, pernas ainda com pêlos, deixando tão claro que é das que leva porrada para levar um pouco de comida para casa. Cansada de catar, mas ainda com vontade de ir lá na Sé traçar planos pra melhorar a vida.
Ela me olha com constrangimento, eu sinto as dores do mundo. E sim, vou na Sé, não para rezar. Mas meu coração ateu quase acredita nesses tais sonhos. Ações humanistas. Defino metas para os dias seguintes e vou no banco para mais notas.
Nada a partir daí importa. Só interessa quando fecha a porta e aproveito o que mais humano tem na gente, que não depende sequer de nada, só nós dois, se quiser, nem das roupas. E, no final das contas, a única coisa que amasso são abóboras, enquanto penso em tudo isso.
quarta-feira, maio 30, 2007

O mais difícil é a volta. Já sabendo melhor o caminho, acelero um pouco mais, uso muito a sinaleira e quando vou pensando em ficar cansado, chegamos. De cara, quer dizer, bem no meio dela, é o nariz que nota a diferença do ar. Mais cinza, menos leve.
Há tantas pessoas nas ruas, as árvores, de absolutas, viram exceção. Quando tem água, vem entre concreto, e fede. Fede feito o asfalto, fede feito as pessoas no ônibus, fede feito a comida do self-service que, aposto, tem um monstro do outro lado.
Lá é diferente. Imagino um alguém com aquele chapéu bem bonito, branquinho, preparando aquela bolonhesa maravilhosa como quem passou o dia inteiro esperando o momento de me servir. A estrada, quando tem tinta sobre piso cinza, tem também laterais verdes e vivas. E mesmo que não queira, o dia começa cedo, então abro o zíper e lá está, o riacho, a poucos metros do travesseiro.
Mas como eu disse, o difícil é voltar. Descarrego as fotos, guardo as roupas que ficaram limpas, penso em uma ou outra frase. Conto quanto sobrou. Dia seguinte, seria vez de acordar cedo. Mas é difícil.
Eu preciso voltar.
quinta-feira, maio 24, 2007
A foto acima, rara, foi batida em 1955, por um fotógrafo que desconheço. Mostra a construção da Igreja de Fátima, no então bairro Redenção, atualmente chamado Bairro de Fátima, em Fortaleza (CE). A obra foi iniciada em 1951, após a visita de uma imagem de Nossa Senhora, vinda de Fátima (Portugal).
Pergentino Maia, que hoje é só o nome da rua onde fui assaltado um dia desses, doou a área para a construção da Igreja e da praça Pio XII. Vendeu todo o resto para as famílias mais abastadas que sonhavam em morar perto de onde se tornaria a principal Igreja católica da cidade, com procissões que superam as realizadas na Sé. Não sei onde gastou o dinheiro.
Os adultos daquela época, hoje, são alguns idosos que resistem em belas casas, especialmente entre a Avenida 13 de Maio (antiga pista de corridas de cavalo) e a Av. Borges Melo, que ligava a Base Aérea à "Estrada do Leite", hoje conhecida por Av. Gomes de Matos. Belas casas, com várias colunas, varandas e amplos quartos.
Cada vez mais raras. Dia após dia, dão lugar a farmácias, bancos e academias. Duas delas tombaram há dois meses. No seu lugar, um grande centro comercial vai ser inaugurado. A propaganda é ufanista: "Bem Vindos ao Futuro".
(Tenho esta foto em um CD, em alta-resolução. Daqui a uns 50 anos vejo o que fazer com ela)
Pois aí em cima - alguns anos depois da foto, claro - aprendi o gosto da hóstia, o cheiro da cinza, como se diz adeus às almas e perdi a fé. Entre frases pré-ensaiadas "aceito, aceito, aceito", sem saber a pergunta, decidi que o ruim não é acreditar na falta de lógica, é ser rebanho.
Mas não a deixei para trás. Vez por outra, desço um pouco antes do ponto de ônibus, e fico ali a olhar. Vejo uma empresa lucrativa, vejo as lembranças, vejo um bairro que amo crescendo ao redor.
Vez por outra.
quinta-feira, maio 10, 2007
A barra de ferro me segura. As pessoas ao lado, também. Esqueço o perigo, o dia, fome, texto. São uns 20, 25 minutos.
Três ou quatro itens na folha da agenda. Só consegui um ou dois. Digo estar doente, devo estar. Vejo a hora ir embora, amanhã faço melhor.
Amanhã acordo mais cedo. Mas não durmo. Abro os olhos. Acendo a luz. Até quando?! Esqueço a hora, viro a página, a figura perde a graça. O avião enfada. A música dói na cabeça. Escovo os dentes.
Nem sou daqueles que só sai de noite, nem sou daqueles que preza pela hora que acorda. Seguro na barra de ferro. Fecho os olhos e aguardo. O final de semana, o final do mês, o final do ano. O pouso, se é que um dia terei.
Caio de lado na curva, passo o cartão e sorrio para a licença. Dou um jeito no fone de ouvido e espero o dia seguinte. E aqui, nestas linhas, a música que seria tão linda não tem letra, é só uma melodia.
quarta-feira, maio 02, 2007
É sério: eu até tentei. Acordei cedo, peguei informação cedinho, passei o dia na espera, mesmo que não falasse. Bem que você poderia ter facilitado para mim, não é?
Porque do meu final de semana que começa sábado meio-dia até domingo de noite eu estava a postos, mas ninguém esperava (por mais que agora digam quem tinham certeza) que fosse logo na hora que se dorme já de olho nas feiras. Aliás, você chegou já era segunda, e nem teu quarto tava arrumado ainda.
Certo, terça foi feriado. Mas você acredita que bloquearam minha conta e hoje eu fiquei até sem almoçar só para poder deixar tudo direito?! Que falta de sorte! Tive ontem a noite inteira pra ir te ver, mas sem um realzinho para gasolina não deu certo.
Tá, tudo bem, eu confesso: também tinha que adiantar trabalho para o dia seguinte. Porque no dia seguinte, ocupado desde ter sono até ter sono de novo, já não seria suficiente para cumprir o que se precisava. Mas eu garanto que entre uma parada ou outra do ônibus, no arquivo carregando ou na hora do copo d'água eu pensei em você.
Sábado dá certo. Só me perdoa que três dias pareçam ser a vida inteira para quem nasceu nesta semana. Mas a vida é assim, ah, você vai ver.
sexta-feira, abril 27, 2007
Mas eis que esta tal de esperança, na maior parte do tempo, é verdade, insiste em vir por nossos olhos olhando para os outros. A gente a perde até quando vê, presta atenção, mas jamais acreditaria que ali, ali mesmo, tão movimentado, seria surpreendido.
Uns dez ou quinze meninos. A idade não varia muito disto. Foi preciso falar grosso. Não, você não vai jogar essa pedra em mim. Não, eu não tenho "um bucado de onça na carteira". E sim, estou apenas indo para casa andando. Criavam coragem. Não tiveram: me safei. Mas um dia vão ter, mais cedo ou mais tarde. Mais que pedras, sei que vai ser à bala.
Foi-se. Só que voltou, no dia seguinte, lá longe, no meio do sertão da caatinga que se chama assim e não fede. Pelo contrário. Tava com aquele cheiro bom de chuva, barro molhado e milho crescendo.
Estes eu pude contar. Eram dez. A idade, não variava muito disto. Mas bastou ficar calado. Eles que cantaram. Eles que falaram em ser tal de cidadão. Eles tinham a rima. Eles embolaram, se fizeram de doutor a cumpadi, falando de terra, falando da terra.
E veio de novo.
Esta velha esperança de acreditar em todos.
quinta-feira, abril 12, 2007
Luisinho. Até admitira. Nome de craque. Só era pena que na escola as outras pernas na quadra não ajudassem como o portão da garagem, e o apelido que ainda hoje odeio fosse só mesmo uma referência ao tamanho. Deixa pra lá. De tarde, esquecia tudo, vestia a blusa do meu pai - ia até depois do joelho - e fazia gols sozinho.
Em uma certa época, eu não ficava tão sozinho e pegava ele me olhando. Daquela cama de hospital na sala de casa, meu avô nunca pode fazer um único comentário, mas eu sentava e contava tudo. Se ele pensou que um dia teria mais gente na torcida, errou feio. Primeiro porque morreu pouco depois, ali mesmo. Segundo porque a parede não deixava ver o que eu fazia quando cansava.
Olhava pra cima. E não era em busca de Deus, nem de ajuda. Pelo contrário. O martírio de alguns me fazia bem. Era um barulho que vinha crescendo, baixava o trem de pouso e curvava para depois morrer na pista perto dali. E enquanto eu olhava as camisas começaram a chegar só mesmo até a cintura, aprendi tanta sigla que até hoje não sei pra quê. Tudo culpa dos AT-26 do 1°/4°GAv, os Xavantes do Pacau da BAFZ e sua rota de pouso.
Estava certo. Decidido. Eu ia ser piloto. E dos bons. Nunca entraria em guerra, mas teria lindas imagens, uma vida agitada e certeira. Pirassununga, Natal, Fortaleza, Anápolis e dali qualquer distância seria pouca para um supersônico. Mais velho, cruzaria oceanos levando gente para lugares distantes.
Só que a Varig não voa mais para o Japão. E os esquadrões foram reagrupados. É óbvio que o plano não faz sentido hoje. Nem nunca. É que são tortos. Vesgos. Pra perto de um lado, pra longe do outro. Estrabismo. Astigmatismo. Sangue escorrendo dos olhos para o rosto como bom resultado de cirurgia que já era uma certa desistência do Dr. Héverson.
Se um curativo incômodo e 3 dias de cegueira quase eterna eram explicações visíveis para ser desfalque nas olimpíadas da 4° série, o que eu não via é que não eram só os titulares que não notavam algo ao não perceberem a ausência do eterno reserva. Aquilo deixava claro que se um dia eu for pra Le Bourget, infelizmente, haverá aeromoças.
Não descobri como um grito, como em Little Miss Sunshine. Foi engolido aos poucos, ano após ano. Conselho após conselho. A cada grau que insistia em não ir embora, a cada dor de cabeça nos 4 anos que decidi simplesmente não depender deles. Consegui passar no vestibular, tirar carteira de motorista e ler muitos livros fingindo ver claramente bem. Só que nesses quase 1.500 dias, teve quem só pensou que eu tinha esquecido de colocá-los naquela manhã. Óculos já eram parte de mim.
Eu não acordaria, nunca, em Pirassununga. Eu não teria a desejada saudades de casa. Mas não cedia. Continuava sonhando com asas, mesmo quando olhava grades curriculares de arquitetura, geografia ou mesmo pedi para ganhar um violão. A resposta foi sim, mas depois de um ano pegando coragem para pedir, ficou difícil perguntar "e aí?" quando notei que não lembraram mais. Deveria ter pedido direto na loja. Fica a lição: não peça nada na praia, que lá só vende peixe e coca-cola. Aprendi isso, mas não quis nem saber de ver aquela prova. Vai que eu passaria. Seria bem pior.
Mas fiquem contentes por mim: o violão nunca veio mesmo. Ainda bem. A voz não é tão melhor que os dribles. Só que ela ainda tem um pouquinho de força, só um fiozinho, que já é o suficiente para perguntar: alguém me ajuda a ser um bom goleiro de verdade?! Quem sabe eu acabe indo aos céus, que nem o vovô.
segunda-feira, abril 09, 2007

É numa praia de ondas tortas que a gente esquece se é domingo ou algum dia dos que terminam em feira. Onde a água ganha valor a cada passo e a fome, sede e até a dor na perna, que insistia em não ir para frente nem mais um metro.... não importam mais. Só porque uma pedra foi esculpida pelo mar e ficou conhecida como furada.
Tudo por uma bela vista.
Seja ela de dia, com sol a pino e a água que não decide se quer ser verde ou azul, ou de noite, quando dá para ver estrelas que eu juraria que não estavam ali. E a hora depende só da vontade e da luz, mesmo que a gente durma depois de umas poucas voltas nas ruas de belos pratos e alguns sonhos, ou acorde quando já queria estar na praia.
Deixa. Vira para o lado, sorri. Bate mais uma foto. Pra quê caminhar mais um pouco se já deu para descobrir que beleza maior não há?! Ah... Jeri...
Tudo por uma bela vida.
Em ondas tortas

