segunda-feira, agosto 02, 2010

Eu não anistiei ninguém.
Eu não abria uma só das grades. Não pouparia de um só choque elétrico quem ligou os fios. Tenho medo dos uniformes, mataria-os. Odeio os libertários em busca de troca de cabeças, e corte de tantos outros. Mataria-os. Todos. Todos. Todos.

Eu não anistiei ninguém.
Eu não sofri nenhum dos crimes.
Eu não tive uma só palavra apagada.
Nem sequer um sonho cancelado.

Mas tenho um país de mentes fechadas. Por quem as fechou. E por quem até hoje gostaria que assim fosse, só para ter um inimigo claro a derrotar.

Eu não anistiei ninguém.


"E tudo aquilo tudo o que eles sempre lutam
É exatamente tudo aquilo que eles são"
Às vezes tenho a impressão que Brasília nada mais é que um bairro de Fortaleza. Um bairro meio distante, onde levo minha vida. No sábado, depois do cinema, poderia pegar um ônibus barato ou dirigir por alguns buracos até chegar onde gostaria.

Iria. Poderia. Seria.

Lembro dos dois mil e tantos quilômetros. Lembro dos amigos que não vejo em uma contagem crescente de meses. Será que eles ainda me estimam como o contrário é tao real?!

Tive meus pais. Tive meu sobrinho. Tive até sorriso de conhecer essa cidade que antes, de verdade, não conhecia. Eu me senti como lá. Até uma perna fazer barulho de quebra.

De tão perto, tão distante. Tão frágil como um corpo que se protege sob capuz e braços abraçados de desespero do que fazer. Sem saber. Sem ter muita ideia. Sem sentir a dor, mas a todo instante imaginá-la negociando entre uma dor que poderia ser fatal e o alívio de uma chegada.

Mas visto azul. Sim. Eu visto azul! E por toda aquela tarde pensei como cada revista de avião valeu por existir. No céu mais alto que já voei. No cuidado mais importante que já fiz. Ter minhas mãos mais confiáveis que qualquer instrumento médico.

Feliz aniversário pra mim. Feliz dia das mães, pra ela. Feliz por todos os dias que perdemos.

quinta-feira, julho 08, 2010

Nunca pensei que, aos 26 anos, pulsaria por meus pais como quem pede pedido de aniversário. Eles chegam com mala e cheiro de maresia. Vem com vontade de conhecer ruas e lugares de fotos, mas têm maior prazer de estarmos, assim, com sofá e filme. E aqui, um duo feliz de gordura e calos nas mãos.

Como em um domingo à tarde de uma vida que passou. Como eu os sinto em saudade.

Percebo, mais uma vez, ser uma mistura entre a escrotização dela e a permissividade social dele. De um lado, maravilhoso humor negro e acidez gostosa, como um copo de coca-cola. Ao par, o talento de encontrar vida nas entranhas verdes de uma superquadra. Fazer o vendedor dizer obrigado, assim mesmo, em itálico, verdadeiro.

Daremos, juntos, adeus ao roxinho aos 60 mil Km e dizemos Oi ao raivosinho pegue na maternidade. Pegue com um sorriso deles que diz "eu gostaria de ser comigo, mas é bom ser seu". Agora vejo mapas rodoviários com mais coragem.

Sinto saudades, mato saudades. Traço caminhos e arrumo novas rodas para os próximos. Sempre nós dois.

quarta-feira, junho 23, 2010

Que seja como Policarpo!

Veja em matas e céus um sentido de pátria. Sinta nos sotaques a beleza de diversidade. Sofra do frio, do calor, e lembre como é grande da ponta a outra. De imensidões verdes, de gigantescos azuis. E no meio o belo amaralo das praias.

Ah, as praias!

Que não me seja pecado achar mais belo os quadros que me mostram como há de ser. Cabeça, tronco, membros. Piso, teto, janelas, cenário. Acusem-me de não saber compreender o gênio. Respondo que sei reconhecer talento, e um bem-feito é sempre maravilhoso.

Longe das dúvidas provocadas, das questões postas por questionar, da beleza idiota da roda de bibicleta na entrada do salão. Afasta-me de mim este cálice. De pura bobagem e somente sangue quente.

O seio nú encanta por se esconder. E não me culpem! Quero os poemas de métrica, quero ver o cunho vernáculo do vocábulo. A beleza a ser apreciada, e não uma gosma a dizer que assim acho. Minha beleza. Meu seio em outrem.

Achar. Achem o que quiserem. Não sou moderno. E amo os hinos do Bilac.

quinta-feira, junho 17, 2010

Não deixo de escrever, apenas não concluo. São frases pela metade, capítulos sozinhos de livros sem começo nem fim, pensamentos de elevador. Nego que só escrevo quando estou triste. Se só o faço por saudades, deveria fazê-lo todos os dias. É a ausência de amigo ateu, de pensamento rápido. Dos finais de semana planejados, de tanto em tão pouco tempo.

Olho no calendário e vejo os finais de semana. Acesso o mapa e tento traçar planos. Às vezes mudar paredes, em algumas ter como grande surpresa um retorno a mais. Sim. Eu me sinto mais completo, mais amado, mas além de beijos também há abraços.

Avião já não é novidade. "Vamos às instruções de segurança, mesmo se o senhor for um passageiro frequente". Eis, afinal, o ser desejado no olhar da então janela de ônibus. "Passageiro frequente". E é bom! Como é maravilhoso! Vejo nuvens e luzes e sorrio por ter sentido. Às vezes vestido de azul, às vezes não, sempre com o mesmo compromisso e fé. Azul na pele, mesmo desnudo.

E fé. A fé que faltaria nos joelhos, palavras e genuflexório. E me sobra em acreditar. Me sobra em entender. Me sobra em confiar. Confiar ao ponto de permitir até os erros para alguém.

Palavras. Palavras não exatas. Vindas tantos anos pós inventadas. Agora que não é mais a barba que diz que estou velho. É a falta dela.

Eterna presença etérea.

quinta-feira, abril 01, 2010

Confundo as roupas e as uso como não usava. Duas blusas, e às vezes é pouco. Quero casaco, quero fechar a janela antes de dormir.

O ventilador, fiz questão, era tão pouco e agora é imóvel. Em Brasília, máxima, 26 graus. Engraçado, em Fortaleza é a mínima.

Mas senti, senti saudades dessas ruas de carros velozes e sotaque que nunca é realmente daqui. Fiz de um canto de uma das caixas de sapato o que posso chamar de casa. Pus a mulher lá dentro, o carro ali na chuva e umas mil e tantas lembranças em caixas do bagageiro.

Olho o calendário e penso o ano como quem prende o ar. Dessa vez eu fico meses, semestres, podendo ir ao Iguatemi. Mas sem Pici Unifor. Podendo sentir frio ao sair do banho, mas não do mar.

segunda-feira, março 29, 2010

Vejo a vida hoje como um texto descritivo do passado.

Vejo as luzes da cidade, depois do Natal, e consigo achar lindo o Congresso com o amanhecer vindo aos poucos.

Vivo em endereço de numeral, pego o trânsito com cuidado para não amassar a roupa. Encontro-os, rio com tempo certo, deixo os dedos nos numerais pelos números da conta.

Como quem ainda não disse "Senhôra, sou eu", tenho os dias de elevador, supermercado, cotidiano de quem pra mim ainda mora longe. Por favor, obrigado.

Sou, eu mesmo, a pessoa estranha de longe.

O longe de onde já senti saudades. É, a terra tremeu. Senti tremer como nunca havia sentido antes. Com sono, com frio, com visa linda dos Andes, e um certo pensamento de que ia morrer.

A terra tremeu. E agora eu estou aqui.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Se você me perguntar o que é o amor eu vou pedir para imaginar um carro com um casal de 20 e poucos anos dentro. A estrada está ótima. Eles vão céleres. Escutam as melhores músicas que se pode escutar. Só tem os dois dentro do carro, mas toda a parte traseira está lotada. São roupas, panelas, livros, são uma mudança. Mudança para nova vida. Mudança rumo ao futuro.

Passam de 100. O asfalto é bom. Passam vários outros, lentos, e o sonho fica mais próximo. Mas aí, nesse momento, sobe um leve cheiro de óleo, vem uma luz e um barulho estranho. Pronto. É iniciada uma contagem, no meio do nada, em que cada minuto a mais de fome e de sede trazem consigo o pensamento de "onde estaríamos agora". O sol fica mais forte, e o mecânico desconfiado fala o que é péssimo de ser falado. Há fome. Há replanejamento. E há lamentáveis "e se" que já fogem ao mapa e julgam ações da última meia hora. Dos últimos dias, meses, anos. Sete anos.

Sete anos ou cento e setenta e dois quilômetros. Nenhum padre, pastor ou juiz vai perguntar "aos sete anos ou aos 178 quilômetros". É isso amor. Pra bom ou pra ruim.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Sinto o cheiro de sanduíche e sinto uma alegria incrível. É meu primeiro sanduíche em muitos, muitos, muitos meses. Um misto com requeijão nunca terá um sabor tão grande! O que já se passou desde o último?! Não falo desde o último sanduíche, pois tive muitos nos últimos tempos. Mas eles vinham em embalagens, pacotes, com nota, com "obrigado, senhor. PRÓXIMO!".

É meu primeiro sanduíche, na verdade, são meus dois primeiros sanduíches, em muitos meses. Sanduíche com gosto de pé no chão, bermuda, cabelo bagunçado e sentimento de "estou em casa".

Casa! Sim! Casa! Agora olho para as paredes azuis e sinto um pouco o que é casa. Deito na cama recém chegada e ainda convivo com os isopores, plásticos e papelão. Nem acredito: está acabando esse interlúdio da vida.

Ouço música e adoro pensar que agora posso simplesmente voltar a pensar com a paz de estar em casa. Penso na teoria que mais me inquieta: o autor morreu?! Isso me parece tão sensível quanto a quarta dimensão. Entendo pouco, não pesquiso muito as vezes, acredito que sim. Outras, acredito que não.

Mas ouço a música sobre cachorros e rio do trecho que parece meu dia a dia:

"Minha vida vai
Um ano contam sete
Rumo ao fim
Acho que ninguém tem dó de mim

Quase não me sobra tempo algum
Não conheço bem lugar nenhum
Fora do trabalho
Eu acho essa cidade
Tão ruim
Acho que ninguém tem dó de mim"

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Há um ano, minha vida se chama mudança. Um calendário inteiro de passar os dedos nos números com uma conta na cabeça. Uma ida ao Recife lembrando que foi lá que minha mãe mudou a vida dela. Chorei naquela volta de Guanabara como quem já sentia tudo o que vinha.

Eu andava de Guanabara, naquela época.

Mais duas idas, mais certezas do que viria. Corri. Suei. Comi bananada e passei muito gelo nos braços. Senti medo das minhas forças, mas era mais forte. Sorri. Sorri. Sorri e vibrei naquele centro histórico. Visitei o Bruno. E adorei vê-lo.

Voltei. Metade do caminho, até Natal, pela FAB. De lá, um ônibus diurno para minha terra. Como pensei ali. Já planejei todas as datas, até as de hoje. Meses de atencedência! E, ao chegar, vi o pai, a mãe e ela com o sorriso e o abraço que já parecem ser os de quando volto, hoje.

Toalhas, calças jeans e venda de móveis depois, tive minha última data. Corri sob o sol de meio dia em Quixadá. Angustiei-me com a certeza de que aquela era a última faxina. Transformei uma casinha de sonhos em uma casinha de saudades.

E, agora, cá estou. Um colcão, um fogão sem gás. E eu. Só eu. Por pouco tempo. Percorro as datas com o dedo no calendário. E minha conta é cada vez menor.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Estar só é como se todos tivessem morrido por um instante. A janela só mostra a árvore, as paredes não dizem nada, não há água, não nada. Mas, logo em seguida, descobre que lá onde seria sua casa há sorrisos, comida e animação. Desliga o som da música repetida e um dos vizinhos faz lembrar que sim, há vida. Há vida.

Há vida lá fora. Fora do casulo, fora do meu lugar. Fora do meu caixão?! Estar só é como estar morto por um instante. Pelo banho que não toma e o cheiro que o toma após um dia a rolar sem nada fazer. O sono intermitente que vai e vem, fazendo tudo, menos estar acordado. Menos estar de pé. Acorde! Levante! Faça algo! Nada. As roupas ficam jogadas no canto de uma parede.


Visto um casaco. Desço. Boa noite. Bom dia. Boa tarde. A quantidade de palavras vai se reduzindo e é um prazer ver a moça errar o preço do sanduíche só para ter uma frase a mais. "Não. É três e oitenta. Olha aqui". Ainda sei falar! Ainda sei o que é abrir a boca e emitir sons para alguém! Mas logo me preocupo que a padaria tão próxima e vazia não é minha casa, e não lembro quando escovei os dentes.


Como quieto. Vou embora pela portas dos fundos. Caridoso, o mendigo me cumprimenta. Elevador. Quarto andar. Abro a porta e já é noite escura. Deixo a escuridão me envolver. É agora, quem sabe. Deito sobre o plástico do colchão guardado para quando tiver vida. Preciso de um banho. Preciso arrumar minhas coisas. Preciso ver se vai dar certo a máquina de lavar naquele canto. Preciso fazer o tempo passar.

Levanto. Vi que o telefone tocou. Ainda bem. Ligo, e volto à vida. Ainda com gosto acre na boca. Ainda em putrefação do ser e de aroma das axilas. A barba crescida como quem esqueceu o dia a dia. Quanto tempo faz?! Dois dias. Só dois dias. Mas só mais alguns para pular da tumba.
Pular e dançar qualquer música sem graça. É que meu telefone tocou. E cada item da mochila, gigantesca mochila, ganharam justificativa. Ainda bem. Um avião vai me levar. Um avião vai me salvar.



sábado, janeiro 23, 2010

Há pouco, gritava Kairós. Uma bem cedo, depois do café, outra mais tarde, antes do almoço, outro um pouco depois, exatamente antes do almoço, mais uma para começar a tarde e, por fim, outra para terminar as atividades diárias. Vez por outra, algumas adicionais para sair correndo, fazer ensaio com dificuldade de alinhamento ou qualquer outra coisa a mais.

Kairós, Kairós, Kairós, Kairós... Nome grego ad infinitum.

Quando ouvi, pensei que era de tribo de índios. Até parece. Todos quase iguais, andando igual, comendo igual, falando igual, morando igual. Uma igualdade um pouco desigual, mas, no fim das contas, chegamos juntos e saímos unidos. Por pouco tempo. Tempo sem mensuração, tempo não cronológico, tempo Kairós. Como a medida de amar é amar sem medida, nosso tempo junto passou sem ser medido (apesar de todos os dias eu saber quantos dias faltavam).

Mas a turma que nós fôramos seria como o é hoje. Uns pensam em ir logo para casa. Outro pensa na conta de luz. Mais um com a cabeça na lua e um último "escama" sem conseguir parar. E o grito AZUL, que já tem até mais tempo, mas só duas vezes ao dia, ainda nem sequer saiu da garganta.

E eu quero gritar. Eu preciso. Estar de cabelo raspados e a roupa suja. Ou simplesmente ter um sentido para estar longe de casa.

Tenho-o.

domingo, janeiro 17, 2010

Meus amigos, eu preciso contar uma história que ontem aconteceu comigo e com o Tenente Rachid.

Estar trabalhando no frio, em plena madrugada, depois de um dia inteiro de trabalho não parece ser uma realização muito grande. Mas tem coisas que fazem a vida realmente valer à pena.

Estávamos na Base Aérea de Brasília, mais de 4 horas da manhã, e já havia sido feito o desembarque do caixão da Dra. Zilda Arns. Os jornalistas faziam perguntas diversas, e uma senhora tímida, de olhar triste, acompanhada de um rapaz chamou o Rachid pro canto e fez uma pergunta sobre os brasileiros repatriados pela Força Aérea.

Ele me chamou e eu cheguei como quem ia atender a uma jornalista, mas assim que eu falei os dois primeiros nomes a cidadã abriu um sorriso e demonstrou uma alegria realmente incríveis. Não era jornalista. Era família. Ela é madrasta de dois rapazes que sobreviveram ao terremoto no Haiti, uns dos poucos sobreviventes do prédio onde estavam. Já tinham notícia de que eles estavam bem, mas eu e o Rachid demos ali a certeza disso e, melhor, estavam vindo para o país.

Foi uma imensa, gigantesca, satisfação perceber tão claramente que cada nome em cada notícia é uma vida humana. E todo o esforço que a FAB e outras pessoas e instituições fazem em salvar quem mais precisa de ajuda é extremamente válido e necessário.

Fico muito feliz de poder lembrar disso por muitos anos e ter a certeza que mesmo distante da tragédia posso dar a minha contribuição. É quando o cansaço ganha sentido e a gente se sente simplesmente feliz.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Brasília me faz sentido, aos poucos. No bordado do colchão jogado no quarto ainda sem luz, no tempo calculado da caminhada do elevador de lá pro elevador de casa.

A cidade finge não ser cidade. Mas é. Ando pelo Setor Comercial Sul. Lá estão os skatistas, comerciantes, vagabundos, prostitutas, criança em busca de brinquedo, ladrões, fotocópias e salgados a R$ 1,50. Escondidos atrás de parede gigantesca. Beco da Poeira, Uruguaia, 25 de março. Perdidas aqui, tão perto mas que não aparecem no suposto cartão postal.

Fez-me sentido em leve caminhada. Daquelas de resolver a vida sem pressa, olhando os prédios que parecem se preparar para uma tragédia com plutônio ou algo assim. As calçadas brigadas com as ruas. Tomam próprio rumo, em um charme que às vezes dá em uma parede, ou nos faz andar mais.

E por aqui Kombi é loja, com algumas delas estacionadas oferecendo serviços. A terra que pouco vale fizeram-nos todos acreditar que vale muito, e é mais fácil a VW levar o serviço tão simples onde ele é necessário. É que o cachorro quente da 404 Sul está fechado. Seria quase uma esquina. Não era.

E na W3 quase acredito ser uma cidade de verdade. De lá, quem sabe, posso ver os prédios de onde o barro é sujo e dizem ter "águas claras". Ainda não vi essas águas. Vejo o céu tão carregado despejando trovões e raios como enfurecido de terem construído tanto concreto onde o não há seria a regra geral.

Chego à biblioteca. Biblioteca sem livros, mas boa biblioteca. Como numa festa de amigos, cada um leva o que quer. E sentam. E estudam. E estudam. E estudam. Alguns dormem. Infelizmente, pouco produzem. Só reproduzem. Reproduzem. Reproduzem. Reproduzem cada alínea com desejo de reproduzir os que já estão nos prédios caixotes ali perto. Salário, segurança, financiamentos, investimentos, morte. Um livro de literatura me parece melhor.

Mais ao fundo, os que estão nos pratos virados, chegaram aqui como quem pode ver o Executivo e o Judiciário pela mesma praça. Cada um ao seu tempo, trazem a reboque placas de carro de todos os lugares, expectativas de qualquer parte e a mesma vontade de seguir pelo Eixão rumo ao aeroporto. Sempre lotado aeroporto. De cada voo que vejo e digo "em breve, estarei em um".

Mas hoje eu não vou voar. Caminho até a rodoviária. Sono, cansaço e suor são iguais em qualquer lugar. Moça grávida que pede esmola e cheira à cola. Ao lado da gravata e do esvoaçante verde da saia bonita. Pastel, coxinha, produtos eletrônicos. La garantia soy jo. Filas dos apressados pelo descanso antes do cansaço do dia seguinte.

Vem vindo meu ônibus. Se eu perder, só amanhã. Subo e recosto na cadeira almofadada. Vem aí quase uma volta ao mundo. Quase. E ninguém, absolutamente ninguém, levantou o braço pedindo para nos acompanhar.

terça-feira, janeiro 12, 2010

"Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia, vêem nisso uma acusação; mas a minha insônia não é bonita nem feia – minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério".

Clarice Lispector

quinta-feira, janeiro 07, 2010

A perna dói.

E sorrio. O riso não vem de caminhada longa, mas de corte que parecia pequeno, mas é grande, mas alegra e conforta, mas não me mata, mas mata um pouco a saudade.

Mostro os dentes ao ouvir zabumba e sanfona, assim mesmo, sem triângulo, sem ser lá minha música preferida, mas só em ser perdida, como o sertão rodeado de cerrado, me agrada. vinte e cinco centavos pela lembrança do cheiro de pau d'arco.

E a minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia. Tá, tudo bem, foi à vista, sem crediário, mas foi Casas Bahia. Com aquele bonequinho que diz "sim, eu sei, eu também não sou daqui, então vem pra cá", preço baixo e satisfação depois de anos vendo propaganda da loja que não tem em Fortaleza.

Fortaleza. Como é bom pronunciá-la em cada letra. For-ta-le-za. FOR-TA-LE-ZA. Nome do meu time. Nome da minha terra. Nome certo de encontrar no site de passagem aérea.

Nome onde hoje está tudo. Mas, como eu disse, é só a lembrança do cheiro do mato. E a minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia. Em breve vou descer dos andaimes para me atirar em braços e abraços. Mesmo que a perna fique avermelhada. Mesmo que tenha ardido um pouco na hora de tomar banho. Mesmo que doa para dar uma leve caminhada.

Toda dor é válida se vale braços e abraços.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Não há hora para morrer. Não há o que dizer ao corpo enrijecido. Não adianta falar em alguém se na mesma noite vamos dormir com a certeza daquele alguém ter ficado sob cimento. É duro. É fato. E é verdade.

É verdade que a ligação telefônica poucos minutos antes ganha força. Um capricho de petit gateaux há meses é a certeza de ter feito tudo corretamente. E aquela mão que me apertou com a força dos olhos que não piscavam enriqueceu, afinal, o último olhar.

Cheiro de flores.
Cheiro de flores.
Cheiro de flores.

E sinto saudades de quando era só colocar Los Hermanos e todos gostavam. Falta de só atravesar a rua e vê-la. Ausência de amigos ateus, com piadas inteligentes e belas frases de teorias malucas com o "La Conjugasion" na mão. Oui, je sens que plus ça change, plus c'est la même chose. Je le sens. Je te sens.

Aquele corpo frio me fez chorar a dor da partida. E me deu certeza de que aquele creme de galinha nunca mais será provado. Como nunca mais vai existir o tempo em que não havia pêlos nas pernas. Ou o tempo quando havia galos, noites, quintais e barba.
Back in US
Back in US
Back in USSR

Essa cidade é estranha. Sim. E irônica. Eis que no país de tantas praias, tantas paisagens e diversidade, muitos de todos os cantos decidem se reunir aqui, presos a serem iguais como os prédios são caixas de sapato.

E ficamos perdidos! Ficamos todos perdidos! Os que gostam da praia, percebemos, correm no asfalto de sunga e tênis. Ridículos. Não seriam tanto se o mar estivesse logo ali, mas não está.

Nos enganamos. Os prédios daquele canto me lembram a praia da infância. Naquele outro, os quase arranha céu parecem esconder um marzão entre eles. Mais para o sul, as casas fingem não ser daqui.

Não ser daqui. Poucos são. Na verdade, já a metade. Mas a outra parte que não o é tenta nomear as ruas sem nome com lembranças das terras tão distantes. Numa esquina, eis o Rio Grande do Sul. Na feira, sobe o cheiro de comida que minha avó faria.

Nas vias, avenidas e quadras, sejam elas super ou não, escorrem sotaques, costumes e placas de carro de todos os lugares. Entre concreto e asfalto, as próprias árvores também solitárias se retorcem como quem sente saudades da floresta.

E as vozes tentam se igualar como se aqui fosse um só lugar. Não é. Vejo os hipermercados um em frente ao outro e penso como deve ser difícil fazer comércio por aqui. Olho os carros parados em vagas públicas e sorrio pela ideia, e detesto a prática. Mas adoro as árvores.

Sim, senhoras e senhores, eu não sou daqui. Mas é o meu lugar. Uma cidade onde só se fala em dinheiro com o desenho de uma comuna para pensar o futuro do país. De todo um país. Toda uma nação que se encontra no aeroporto para chorar e matar as saudades de nomes de ruas, praias e temperos.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Momento velhice:

A Abigail Breslin já tem 13 anos. Isso significa que eu estou cada vez mais velho. (E que em pouco tempo ela pode me decepcionar!)

Momento nacionalista:

Falam mal dos tradutores brasileiros, mas enquanto Little Miss Sunshine é Pequena Miss Sunshine por aqui, em Portugal eles chamam de "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos". Ainda bem que foi a Globo que passou na TV aberta. Se fosse o SBT, teria , com certeza, o nome lusitano. Dizem que "Lost", na emissora do Sílvio, seria "Uma ilha muito louca".

Momento esperançoso:

"Zombieland" tende a ser um dos melhores filmes que vou ver no cinema em 2010. E não vou ver sozinho!

Momento violento:

Dá vontade de sentar o dedo na fila de "Crepúsculo", "Anoitecer", "Tardezinha", "Finzim de dia" e todos esses filmes que só o cartaz já conta tudo. O de Zombieland também conta?! Pode até contar, mas cultura zumbi é alta costura!

http://www.youtube.com/watch?v=071KqJu7WVo

Ouço The Winner Is e lembro daquela maravilhosa manhã, que já faz tempo, e tão poucos meses!

Ouço-a enquanto caminho, caminho como sem fim, caminho até pensar em percorrer a longa estrada só à pé. E vejo avião ao meu lado. E do outro. E sobre o viaduto acima da cabeça.


Vou só pela rua feita para ser só, sem ligar quase nada a nenhum lugar. Vou bem. Vou bem. Há pouco fiz o caminho à noite, sem luz, sem roupa pro frio, sem qualquer abraço na hora de nem poder dizer "cheguei".

E mesmo que a noite tenha sido salva, mesmo que o plano telefônico salve a minha alma, mesmo que o tênis sujo seja só uma lembrança da juventude que já passou, ainda olho para aquela figura na parede e nada sinto. Nada. Indiferente.

A festa é para todos nós. E é só uma festa. É só comida, presentes, e felicidade. Nada além. Nada.

E às vezes isso me dói na hora de andar pela rua, sozinho. Não por medo. É que essa rua não vai até longe. Para lá, preciso das asas, das turbinas, da autorização para decolar.

Eu não acredito. Definitivamente, e ainda mais, eu não acredito. E assim, na hora ter a noite salva, de fechar os olhos e ouvir a voz lá de longe, de ver a terra sumir depois da nuvem, eu me sinto vivo. Eu me sinto vivo. Eu me sinto vivo.

E uma vida só me basta.